A saga de Xuxa

Os gritos acordaram Xuxa quando as luzes e o calor ainda estavam longe de chegar. Ela se empertigou no mesmo momento, e ignorou a preguiça e o friozinho da madrugada para correr até o quintal. Tanta gente junta a deixou animada, e, inconscientemente, seu rabo já balançava de um lado para o outro. De repente, todos passaram a aplaudi-la e gritar seu nome, com aquelas vozes carinhosas que sempre usam quando querem deixá-la feliz. A excitação foi tanta que ela se mijou.

O que se passou a partir dali foi uma série de afagos, cheiros e abraços. Eles falavam “Xuxa isso”, “Xuxa aquilo”, e apesar de ela não entender o significado, sabia que era coisa boa. E era mesmo. Os dias seguintes àquela noite incomum foram de uma tremenda festa. Eram tantos amigos novos, tantas luzes dos que seguravam caixinhas pretas. Sua casa estava feliz.

Pelo menos para Xuxa. Mas havia algo errado com aquela mulher que lhe dava comida todos os dias, e que lhe dava um lar. Aquela mulher, que chamavam às vezes de Maria, às vezes de Luzia, estava com um bucho há até poucos dias. E agora, o bucho tinha sumido, mas ela não estava com um rebento por perto. E havia um ar de tristeza. Às noites ela até chorava, coitada.

Mas não paravam de vir pessoas para ver Xuxa, e ela estava feliz. Tão feliz que quase não dormia. Esperava o outro dia chegar para ver aqueles olhos curiosos do portão, para receber tapinhas amigáveis na cabeça quando passeava. Foi o melhor tempo da sua vida.

Até que um dia, tudo acabou. Foi rápido, e Xuxa até agora não entendeu, mas aquela alegria de todos com ela não era mais a mesma. Ainda existiam as palavras carinhosas, os acenos, mas não era a mesma coisa... Simplesmente não era.

E então, Xuxa, a cadela-heroína, voltou a ser Xuxa, a mesma vira-latas de sempre. E em algum lugar dentro de seu cérebro canino, a lembrança desses dias durarão... Até que lhe dêem denovo seu prato favorito, o qual ganhou quando salvou o bebê: carne com macarrão.

Na semana passada, a faixineira Maria Luzia Campos alegou que sua cadela, Xuxa, havia encontrado um bebê recém nascido abandonado em um terreno e que o animal o tinha resgatado ao arrastar uma caixa de papelão. Alguns dias depois, Maria Luzia admitiu que o bebê era seu, mas tinha medo da reação dos familiares, então inventou a história. A cadela ganhou seus 15 minutos (na verdade uns três dias) de fama. A faixineira, que se arrependeu, não sabe se terá seu filho de volta.

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