Matéria minha para a edição do último domingo do Jornal do Commercio.
» PARAGUAI
Homem do povo no poder
Ex-padre, o esquerdista Fernando Lugo é a resposta dos paraguaios à conturbada hegemonia do Partido Colorado no país. Sua posse como presidente será na próxima sexta (amanhã)
Elias Roma Neto
Especial para o JC
Foram 61 anos de poder do Partido Colorado no Paraguai, um tempo em que o país ficou marcado por uma ditadura (1954-1989), queda na economia, constantes golpes de Estado e uma imagem de oásis do contrabando ilegal de mercadorias. Não seria errado dizer que, com a eleição do opositor Fernando Lugo, 56 anos, ao posto de presidente, em abril último, o povo paraguaio quis passar uma mensagem. E é com essa responsabilidade de mudar sobre os ombros que o ex-bispo, adepto fervoroso da Teologia da Libertação – que enfatiza a questão social –, assume seu cargo na próxima sexta-feira (15), em Assunção.
A trajetória de Lugo até o topo começou quando ele era uma criança – em San Solano, no distrito de San Pedro del Paraná, em Itapúa, a 400 quilômetros da capital – e viu a ditadura militar influenciar sua infância e adolescência, nas décadas de 1950 e 1960. A ascensão chegou quando venceu a candidata Blanca Ovelar, do Partido Colorado, com mais de 40% dos votos, nas eleições presidenciais de 20 de abril, liderando a Aliança Patriótica para a Mudança.
Durante o intervalo, ele pregou e atuou como uma voz para aqueles que viriam a ser seus eleitores no futuro, liderando movimentos de resistência e ganhando adeptos por suas crenças religiosas e políticas. Depois de ingressar no noviciado, em Assunção, em março de 1970, virou sacerdote no Equador, em 1977, e voltou para estudos de espiritualidade e sociologia. Foi nomeado bispo em 1994, cargo que teve até a Santa Sé o aposentar em 2004, por sua militância. No mês passado, o Vaticano concedeu-lhe estado laico, liberando-o para o cargo de presidente.
O Paraguai seguiu um caminho que vem se tornando praxe na América do Sul: a eleição de um líder ligado à esquerda, com origem no povo. Entre seus planos, Lugo afirma que lutará pela melhora da educação pública e do sistema de saúde, realizará uma reforma agrária e terá um cuidado especial com a população indígena.
“O país buscou sua alternativa e a viu em Lugo. Mas ainda é cedo para afirmar se dará certo, pois dizer que o povo será escutado, todos dizem. Resta saber com quais mecanismos ele pretende alcançar esses resultados”, declarou o professor de história da América Latina da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Marc Hoffnagel.
Ainda assim, o presidente eleito não se considera de esquerda. Se auto-intitula como um centro-esquerdista, sendo comparado aos presidentes do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, e da Venezuela, Hugo Chávez. “Ele se aproxima em alguns pontos, como falar diretamente com os pobres, e sofre as mesmas acusações de demagogo. Mas sua formação é diferente. Acredito que fará sua própria trajetória”, explica a professora de história das relações internacionais da Universidade de Brasília (UnB), Albene Miriam Menezes.
Se depender de Lugo, ele está mais inclinado a Chávez. Em entrevistas recentes, ele declarou que a Venezuela pode equilibrar a hegemonia continental do Brasil e Argentina.
Itaipu é promessa de boa briga com Brasil
A principal promessa de Fernando Lugo para acertar o sistema econômico do Paraguai se baseia na renegociação dos valores cobrados ao Brasil pela energia produzida na hidrelétrica binacional de Itaipu, localizada na fronteira entre os dois países. O presidente eleito espera reajustar a tarifa cobrada ao governo brasileiro, alegando que o valor atual está defasado por se tratar de um contrato fechado na década de 1970. O presidente Lula prometeu que não dará bola para as reclamações.
As últimas declarações, principalmente por parte do vice de Lugo, Federico Franco, dão um tom de vilão ao Brasil, criando uma certa tensão que só não se estendeu por causa de um encontro entre Franco e o segundo vice-presidente do Senado brasileiro, Alvaro Dias. Apesar da conversa, no mês passado, os países não chegaram a um acordo.
Para o professor de história da UFPE, Marc Hoffnagel, a tendência é que a situação seja amenizada. “Pelo próprio perfil dos dois países e suas autoridades, acredito em negociações, não em crises diplomáticas. Não deve chegar a uma tensão como a da Bolívia (em que o presidente Evo Morales nacionalizou refinarias da Petrobrás)”, afirma.
Itaipu é um empreendimento binacional, construído entre 1971 e 1973, e que produz cerca 90 milhões de megawatts-hora por ano, energia suficiente para atender a 95% da demanda paraguaia e a um quarto das necessidades brasileiras. De acordo com o contrato, apenas em 2023, quando toda a dívida da hidrelétrica estiver paga, devem ser reabertas negociações – o Brasil gastou US$ 12 bilhões na construção, contra U$ 50 milhões do Paraguai.
Mas há outras rusgas a serem acertadas entre Brasil e Paraguai, como lembra a professora de História das Relações Internacionais da UnB, Albene Miriam Menezes. “A agenda geopolítica das duas nações é complexa, começando pela questão dos brasiguaios (brasileiros que vivem no Paraguai, em terras próximas à fronteira, e que sofrem ameaças de sem-terra paraguaios), fora o contrabando e aspirações de igualdade no Mercosul”, explica.
ENTREVISTA » LEONARDO BOFF
“Lugo é comprometido e nada extremado”
Teólogo mais conhecido do Brasil, Leonardo Boff é uma inspiração para Fernando Lugo, que admitiu ser fã do trabalho do brasileiro, um dos expoentes da Teologia da Libertação, movimento social da Igreja Católica dos anos 70. Com uma experiência de 30 anos em contato com Lugo, Boff refutou, em entrevista ao JC por e-mail, comparações do presidente eleito paraguaio com o brasileiro, Lula, e afirmou acreditar em resoluções pacíficas quanto ao impasse da hidrelétrica Itaipu.
JC – Como o senhor considera esta transição democrática no governo do Paraguai, após décadas de mudanças conturbadas no poder?
LEONARDO BOFF – O Paraguai se inscreve no movimento histórico latino-americano que está inaugurando um novo tipo de democracia, nascida de baixo, dos movimentos populares. O povo cansado de democracias que serviam preferencialmente os interesses das elites, decidiu eleger pessoas ligadas a ele com capacidade de atender demandas populares, reprimidas por gerações. Lugo se elegeu dentro deste imaginário.
JC – Está se falando que Lugo é/será um novo Lula. É justa essa comparação?
BOFF – Toda comparação claudica. A situação social do Paraguai é muito diferente da nossa. Não há tantos movimentos sociais, como no Brasil. Mas, como no Brasil, há uma imensa esperança de mudanças. Lugo se elegeu prometendo mudanças profundas e combate sistemático à corrupção, a doença crônica do país, pois o Partido Colorado dominou por 60 anos criando um sistema social que lhe dava imensas vantagens. Ele possui carisma, mas de natureza diferente daquele de Lula, pois Lula é esfuziante e Lugo extremamente tranqüilo.
JC – O senhor se colocou à disposição para prestar assessoria a Lugo. Já houve algum contato com sugestões?
BOFF – São muitos que a partir de seu próprio trabalho ofereceram ajuda ao novo governo, como o economista prêmio Nobel Joseph Stiglizt. Eu não formulei nenhuma proposta. Apenas estive lá dando palestras sobre ecologia e ética, numa das quais o próprio presidente participou. Ele mostrou um interesse na questão ecológica que poucos possuem. Sei também que o Ministério de Desenvolvimento Social (do Brasil) ofereceu assessoria técnica caso o governo Lugo queira instaurar políticas tipo Bolsa-Família.
JC – O que representa mais um presidente de esquerda na América Latina?
BOFF – Quase todos os presidentes latino-americanos são de centro-esquerda, quer dizer, fazem políticas sociais que beneficiam as maiorias, embora, devido às pressões da macroeconomia mundial, tenham que se manter dentro dos parâmetros econômicos do neoliberalismo. Mas, seguramente, a eleição de Lugo reforçará a atual onda de renovação democrática do continente. Todos procuram uma travessia difícil de um tipo de Estado neoliberal e privatista para republicano, que coloca a coisa pública no centro das preocupações. Estas mudanças configuram a democracia com rosto mais popular e participativo.
JC – Qual a imagem que lhe vem ao pensar em Lugo, sabendo que ele é um admirador de seu trabalho?
BOFF – Como teólogos, nos conhecemos há mais de 30 anos. Ele sempre foi alguém que unia reflexão séria de teologia e sociologia (é formado na Gregoriana de Roma) com a realidade do povo, especialmente dos indígenas guaranis que são maioria no país. É uma pessoa séria, comprometida e nada extremada. Sua característica básica é ouvir e escutar o que o povo tem a dizer e acolher as soluções que ele encontrou em gerações de resistência e de luta por subsistência. Nunca devemos esquecer que a Tríplice Aliança (Brasil, Argentina e Uruguai) moveram no século 19 uma guerra de 5 anos que no final significou um verdadeiro genocídio, pois 96,5% dos homens foram mortos ou simplesmente passados a fio de espada, entre eles milhares de crianças. É uma dívida ética que nunca pagamos. Mas Lugo olha para frente e não quer envolver-se com estas questões do passado. Conta com o Brasil para uma integração mais rápida no continente e no nível de desenvolvimento que os vizinhos já alcançaram.
JC – Lugo pretende renegociar o contrato de Itaipu, enquanto Lula se nega. O senhor acredita que tensões irão emergir entre os países?
BOFF – Tanto Lugo quanto Lula são pessoas com grande sentido de justiça e com vontade política de integração. As soluções com referência a Itaipu não serão encontradas num nível técnico, mas num diálogo político. Talvez Lugo queira antecipações daquilo que o Paraguai deveria receber no futuro, para assim ter capital para fazer as reformas necessárias. Ademais, o Brasil pode ajudar o Paraguai na extensão de energia para todos os rincões, como fez aqui com o Projeto Luz para Todos, e oferecer tecnologia para criar uma base industrial que utilize a energia sobrante.



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