Matéria minha publicada em 27.07.2008, no Jornal do Commercio
Quarta Frota reacende tensões
Reativação de esquadra naval americana gera controvérsia na região sobre seus reais motivos
Elias Roma Neto
Especial para o JC
Exatos 58 anos após ter sido desativada, a Quarta Frota naval americana voltou às atividades este mês e trouxe com ela um mar de desconfianças a alguns líderes dos países latino-americanos. Ao entrar em ação no exato momento em que a atividade militar na região está em evidência – com o aumento da pressão do governo colombiano sobre as Farc e acusações dos EUA sobre uma “corrida armamentista” da Venezuela – a esquadra criou um clima de tensão, que, mesmo com as explicações de que terá caráter humanitário, não parece propenso a acabar tão cedo.
Para entender o receio das Américas Central e do Sul, é preciso ir um pouco mais fundo na história, mais especificamente no período da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), quando a Quarta Frota foi criada. Ela durou inicialmente de 1943 a 1950, atuando no Atlântico Sul como protetora da costa leste dos continentes, garantindo o tráfego de navios aliados e destruindo submarinos alemães e italianos.
O poderio militar é a principal causa do temor. “A posição dos Estados Unidos é clara. Eles querem se impor e mostrar sua hegemonia na área, já que percebem a movimentação da Venezuela de formar um eixo sul-americano com Bolívia, Equador e até mesmo o Brasil”, afirma o cientista político Jorge Zaverucha, da Universidade Federal de Pernambuco.
Oficialmente, a Quarta Frota não terá a presença permanente de navios e sua volta foi uma questão administrativa, não política. Mas, o passado acaba “condenando” os EUA, já que um estudo da Universidade de Columbia mostra que o país ajudou a derrubar 41 governos latino-americanos entre 1898 e 1994.
O presidente da Venezuela, Hugo Chávez, criticou a reativação afirmando prever um “destino obscuro, porque se chocará com a nova época e contra os povos”. Outros censores foram os também líderes da esquerda Evo Morales, da Bolívia, e o cubano Fidel Castro, atualmente afastado do poder. No Equador, o presidente Rafael Correa já avisou que não tem interesse em renovar o contrato da base aérea dos EUA em Manta, que acaba em 2009. Na Argentina, Cristina Kirchner cobrou (e recebeu) informações oficiais.
O Brasil seguiu o mesmo rumo. No último dia 17, a secretária de Estado americana, Condoleezza Rice, telefonou para o ministro de Relações Exteriores brasileiro, Celso Amorim, para tranqüilizá-lo. Condoleezza argumentou que o objetivo é de cooperação e se comprometeu em manter transparência no repasse de informações e respeitar o direito internacional. As explicações satisfizeram o ministro da Defesa, Nelson Jobim, que disse não temer a iniciativa. “Nas 200 milhas (náuticas) brasileiras, a Quarta Frota não entra”, avisou.
PETRÓLEO
Ainda assim, um clima de tranqüilidade não parece perto, já que muitos críticos temem ver as novas reservas de petróleo brasileiras irem parar na mão dos americanos. O Campo de Tupi e o Bloco Carioca, descobertos em menos de um ano, estão próximos ao limite de 200 milhas náuticas da costa brasileira – cerca de 370 quilômetros. O governo americano nega as acusações.
“Nos surpreendeu a decisão americana, até porque está no fim do governo Bush, então deveria ser algo a ser passado e repensado pelo próximo presidente. Também é estranha a coincidência de acontecer em um momento de grandes descobertas de petróleo em águas profundas”, declara o senador Pedro Simon (PMDB), membro da Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional. “A política externa brasileira é vista como ambígua aos olhos americanos. Essa reativação atende a interesses econômicos”, concorda Jorge Zaverucha.
General alerta contra sabotagens
Para o general Durval de Andrade Nery, do Centro Brasileiro de Estudos Estratégicos, a Quarta Frota americana, de paz, não terá muita coisa. Ele afirma que a maior prova disso é a nomeação do almirante Joseph D. Kernan, integrante do Seal, – forças de operações especiais da Marinha dos EUA que tem, entre outras coisas, treinamento em demolição subaquática.
“Ele (Kernan) é um tremendo guerreiro, a vida toda dele foi comandando missões de sabotagem. Bush já deu declarações de que não reconhece a soberania brasileira nas 200 milhas, e a reativação da frota acontece justamente depois da descoberta de petróleo nesses limites. Será que vamos ter condições de manter plataformas ou teremos sabotagens nelas?”, questiona o general.
Nery lembrou a atuação de navios americanos em costas brasileiras no passado. O Plano do Teatro de Operações do Nordeste do Brasil, em 1941, propunha uma invasão de 100 mil soldados americanos ao Nordeste Brasileiro. A promessa não chegou a sair do papel porque o então presidente, Getúlio Vargas, cedeu acesso à costa nordestina.
A Embaixada americana no Brasil garante que o fato de Kernan ter sido ex-comandante de guerra especializada não tem ligação sua escolha.
ENTREVISTA » G. MCELHINEY
“Não há interesse em petróleo”
Em meio a uma chuva de acusações, o adido de imprensa da Embaixada dos EUA no Brasil, Gary McElhiney, garantiu que a Quarta Frota não está interessada nas recém-descobertas bacias de petróleo brasileiras. Por e-mail, McElhiney garantiu que, se preciso, a esquadra está pronta para entrar em combate – embora este não seja seu objetivo.
JC – Qual o propósito da reativação da Quarta Frota?
GARY McELHINEY – A Quarta Frota foi restabelecida para permitir uma melhor administração dos recursos navais existentes, de forma a executar com maior eficiência as cinco missões da Frota: apoio a operações de manutenção da paz, resposta a desastres naturais, apoio humanitário, interdição contra narcóticos e exercícios tradicionais com nossos amigos e parceiros na região.
JC – Qual será o efetivo?
McELHINEY – Não haverá navios permanentemente alocados à Quarta Frota. Em vez disso, a frota consiste de um efetivo de 120 pessoas baseado no quartel-general, em Mayport, Flórida, que foi inaugurado no dia 12 de julho deste ano. Os navios e a equipe, incluindo médicos, serão selecionados a partir de recursos navais existentes, dependendo da necessidade de cada missão específica.
JC – Em caso da necessidade, a Quarta Frota estaria preparada para entrar em conflito armado imediato?
McELHINEY – O quartel-general da Quarta Frota está equipado para a condução de todo a gama de operações de segurança marítima e atividades de cooperação que promovam e reforcem parcerias, aumentem a capacitação das nossas nações parceiras e detenham agressões.
JC – Têm fundamento as acusações de autoridades brasileiras de que os Estados Unidos estariam interessados no petróleo achado na costa marítima do Brasil?
McELHINEY – O restabelecimento da Quarta Frota não tem nada a ver com as descobertas de petróleo no Brasil. Nossa cooperação com os parceiros regionais tem aumentado muito com o passar dos anos. Por exemplo, o Panamax – um exercício naval multinacional patrocinado pelo Comando Sul dos Estados Unidos na defesa do Canal do Panamá – foi realizado pela primeira vez em 2003 com três nações participantes. No ano passado, o exercício já tinha incluído 19 nações e, este ano, calculamos que mais de 20 países participarão. Com isso, aumentou também nossa necessidade de capacidade de planejamento para assegurar que níveis adequados de recursos e pessoal sejam alocados.



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